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A economia não vota, mas vai às urnas

A economia não vota, mas vai às urnas

Por Silvio Persivo (*)

Há uma percepção crescente de que a economia brasileira atravessa um momento ruim- percepção que alcança não apenas os consumidores, mas também empresários e setores produtivos. Pesquisas recentes, conforme os números citados, apontam para uma combinação pouco sedutora: preços em alta, juros elevados, endividamento e a sensação de que a vida financeira ficou mais apertada.

Na pesquisa BTG/Nexus de agosto, 53% dos entrevistados classificaram a economia como ruim ou péssima. Outros 45% disseram que a situação está pior do que no governo anterior, o de Jair Bolsonaro- que, convém lembrar, enfrentou uma pandemia. A comparação tem seu peso político; não necessariamente resolve, por si só, o debate.

O custo de vida, entretanto, não precisa de grande teoria para ser percebido: basta passar no mercado. E a inflação oficial nem sempre conta a história inteira. Há também a reduflação: o produto encolhe, perde qualidade ou vem em embalagem mais modesta, enquanto o preço conserva a autoestima. Ainda assim, 61% dos entrevistados reclamam da alta dos preços, e 39% dizem ter perdido poder de compra.

O aperto aparece também nas dívidas. Os números indicam que 83,9 milhões de brasileiros começaram o semestre com o nome negativado- um recorde e sinal alarmante de fragilidade financeira. A causa e o mecanismo são conhecidos, embora não seja menos doloroso por isso: juros reais altos tornam o crédito mais caro; famílias endividadas consomem menos; empresas vendem menos; e os bancos, diante do risco, selecionam ainda mais quem pode tomar empréstimo. O ciclo não tem nada de misterioso. É uma engrenagem econômica- daquelas que funcionam perfeitamente para moer o otimismo. E contribui para isto um governo que gasta mais do que pode mesmo com aumento de impostos e recordes de arrecadação.

Neste cenário, a elevação da projeção do IPCA citada no texto, de 4,2% para 5,3%, reforça a preocupação. A soma de preços pressionados, crédito caro e renda comprometida ajuda a explicar o desgaste do governo e o desejo de mudança expresso pela parte majoritária do eleitorado. Em ano eleitoral, a economia costuma ocupar o centro do palco; os discursos ficam na ribalta, mas a conta do supermercado entra sem convite. Dói no bolso.

O governo Lula, além de enfrentar avaliações negativas, não parece ter meios de transmitir expectativas de melhoria. Nem mesmo medidas populares, como o reajuste do Bolsa Família- cujo efeito eleitoral, naturalmente, pode ser discutido-parecem suficientes para mudar o humor de parte do público. E, quando o governo age em temas delicados, como as apostas on-line, a crítica é que o faz sem avaliar devidamente os efeitos imediatos e a segurança jurídica dos contratos e o impacto na vida de empresas, clubes e pessoas.  Daí a impressão, entre adversários e críticos, de que o governo já entregou o que podia entregar. Flávio Bolsonaro já fala em “liquidar a fatura” no primeiro turno. É uma incógnita. Em política, não há resultado antecipado: entusiasmo, rejeição e intenção de voto não são a mesma coisa, e tudo é passível de alteração, porém o desgaste do material torna impossível Lula despertar entusiasmo. Dizem, e as pesquisas parecem atestar, que bateu no teto.

Também pesam as controvérsias em torno do caso Master com suas ramificações no governo, no STF e as alegações que envolvem o Lulinha, em apurações relacionadas a suposto tráfico de influência e às fraudes contra aposentados do INSS. São acusações graves, e como não permitiram que fossem apuradas, estão se convertendo em sentença por força de manchetes. Por isto o mercado de previsões, a mesa onde o dinheiro fala, revela um placar de 62% para Flávio Bolsonaro e 37% para Lula. Não é pesquisa. É precificação de quem tem dinheiro e informação. Até fizeram restrição à divulgação no perfil brasileiro na plataforma, supostamente por pedido do Ministério da Fazenda, no entanto, hoje, é impossível segurar o que circula na internet.  No fim, a tese é simples: governos podem distribuir benefícios, produzir slogans e prometer horizontes; mas, se o cotidiano continuar mais caro e o crédito mais difícil, a propaganda terá de competir com a fatura. A política oferece explicações. A economia, como de costume, apresenta a conta.

É a economia, estúpido- dizem os norte-americanos- sobretudo quando o eleitor no começo do mês passou no supermercado e fica pensando em “sortear” conta para pagar ou como irá chegar no fim do mês.

(*) é escritor e economista . 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela “OPINIÃO”, que é exclusiva do autor.

Fonte Gente de Opinião

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