Ontem vi uma cena triste em nossa querida cidade.
Crianças jogando bola no campinho ao lado do ginásio de esportes, em meio ao matagal. Jogavam apenas de um lado do campo, onde o mato estava mais baixo, possivelmente, já rebaixado pelas pisadas da garotada. Ao fundo, garotos maiores, jogavam basquete numa outra quadra surrada e trincada, com tabela e cesta também apenas de um lado. Se divertiam com a inocência característica da idade, talvez até agradecendo o fato de terem ao menos um dos lados para brincar com a bola.
Olhei do lado direito, ao fundo, e vi a velha quadra de vôlei de areia. Vazia e silenciosa. Faz mais de 15 anos que joguei ali. E não me surpreenderia se soubesse que ela encontra-se exatamente igual, com mais cascalhos em quadra do que areia.
Teve uma vez, que eu e alguns amigos tivemos que cortar a grama em volta, pois a bola sumia quando ia pro mato. Levamos cavadeira, carriola e enxada para pegar a areia dos cantos e jogar ao centro da quadra, onde ficava os buracos maiores que acumulavam água da chuva. Fazíamos o que os governantes não faziam. Éramos um pequeno grupo de jovens, com o simples desejo de ter um lugar decente para praticar esporte.
Mas, isso foi há 15 anos atrás.
Ontem vi aqueles meninos com outros olhos.
Já não sou tão jovem, nem tenho tanta inocência.
O que vi foi um grupo de jovens pedindo socorro!
“Por favor, diziam:
– Nos deem o esporte para que as drogas não roubem nossos sonhos.
– Coloquem uma bola em nossas mãos, e não filhos pequenos, que fiz sem querer e nem sei como cuidar.
– Vão me visitar numa final de campeonato, e não num domingo na prisão.”
No total devia ter somente uns 10 jovens brincando naquele espaço de lazer.
E o restante deles, numa cidade com quase 20 mil habitantes?
Talvez nas rodas de cigarros. Atrás dos muros da praça, sentindo as primeiras descobertas. Nos bares arrumando confusão ou morrendo antes da hora.
Nós, como cidadãos, somos todos cúmplices e vítimas dessa juventude, cheia de energia e poucas opções.
Não lhes damos oportunidades, nem esperanças, não os reconhecemos.
Não lhes damos nada.
Nem ligamos.
Um dia eles entrarão em nossas casas, já perdidos na vida, e vão nos perguntar quem somos.
Levarão os nossos sonhos.
Sonhos que sempre foram nossos.
Agora são deles.
Por (Keiti Matsubara)
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