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Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA em Belém.

Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA em Belém.

 Aos 61 anos e trabalhando há pelo menos 23 cortando grama em quintais, morador de Belém faz cursinho à tarde após trabalhar de domingo a domingo, passa em 3º lugar para Enfermagem na UFPA na primeira tentativa e planeja usar a formação para cuidar de pessoas de baixa renda

Depois de décadas dedicadas ao trabalho, uma rotina dividida entre jardinagem, cursinho e revisões noturnas levou um morador de Belém a alcançar uma vaga disputada em universidade federal, transformando um antigo objetivo profissional em uma nova etapa marcada por estudo, família e vontade de cuidar de outras pessoas.

Após aproximadamente um ano conciliando trabalho de domingo a domingo, cursinho à tarde e revisões durante noites e madrugadas, ele conquistou o terceiro lugar em Enfermagem na Universidade Federal do Pará, a UFPA, logo na primeira tentativa de ingresso no ensino superior.

Durante a preparação, cada período do dia ganhou uma função específica, já que Alcyr precisava garantir renda pela manhã, acompanhar as aulas do pré-vestibular entre 13h30 e 18h e ainda reservar parte da noite para retomar o conteúdo estudado.

Segundo reportagem do G1, fonte principal desta matéria, o jardineiro morava no bairro do Coqueiro, em Belém, e carregava uma trajetória profissional variada antes de decidir disputar uma vaga universitária, depois de muitos anos dedicado principalmente ao trabalho manual.

Antes da jardinagem se tornar sua atividade mais duradoura, Alcyr já havia atuado como recenseador, trabalhador de serviços gerais e cobrador de ônibus, acumulando experiências diferentes até completar pelo menos 23 anos trabalhando com corte de grama em quintais da capital paraense.

Ao decidir voltar aos estudos, ele também reorganizou o espaço doméstico, transformando o próprio quarto em ambiente de preparação, onde livros recebidos por doação, papéis usados nos exercícios de redação e outros materiais passaram a dividir espaço com um objeto de significado especial.

Jaleco no quarto virou referência durante a preparação para Enfermagem

Esse objeto era um jaleco que havia recebido de um sobrinho médico, responsável por lhe repassar roupas usadas, mas Alcyr preferiu lavar a peça, colocá-la cuidadosamente em um cabide e mantê-la visível durante o período em que se preparava para as provas.

Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA após conciliar trabalho diário, cursinho e estudos noturnos em Belém.
Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA após conciliar trabalho diário, cursinho e estudos noturnos em Belém.

Pendurado no quarto, o jaleco funcionava como uma referência concreta ao caminho profissional que pretendia construir, permanecendo diante dele durante as horas de estudo e ajudando a materializar um objetivo que ainda dependia da aprovação no processo seletivo.

A escolha por Enfermagem, porém, não surgiu apenas durante o cursinho, porque Alcyr já carregava experiências pessoais com o sistema de saúde e contou ao G1 ter passado por cinco cirurgias realizadas em diferentes hospitais ao longo da vida.

Nessas passagens pelas unidades de saúde, o atendimento recebido de enfermeiros e médicos ficou registrado em sua memória e contribuiu para despertar o interesse pela área, ajudando a direcionar a escolha do curso quando decidiu finalmente disputar uma vaga universitária.

Diferença de idade não afastou Alcyr da sala de aula

Quando entrou no pré-vestibular, as aulas já haviam começado, e Alcyr passou a dividir a sala com estudantes muito mais jovens, principalmente adolescentes entre 16 e 18 anos, sem permitir que a diferença de idade alterasse sua frequência ou seu compromisso com o curso.

Em vez de reduzir o ritmo, ele manteve presença constante, relatou que não faltava nem chegava atrasado e passou a ser acompanhado de perto por professores, colegas, funcionários e integrantes da coordenação, enquanto seguia trabalhando todas as manhãs para garantir renda.

Em determinado momento da preparação, Alcyr também passou a colaborar com a limpeza da escola como forma de contribuir para o pagamento da mensalidade do cursinho, incorporando mais uma responsabilidade à rotina que já conciliava trabalho, deslocamentos e estudo.

Mesmo depois de deixar a sala de aula, a preparação continuava em casa, onde ele retomava os conteúdos durante a noite e, em algumas ocasiões, avançava pelas madrugadas, prolongando os estudos além das horas que já havia passado no trabalho e no curso.

Esse ritmo foi mantido por aproximadamente um ano e antecedeu a primeira tentativa de Alcyr de conquistar uma vaga no ensino superior, período em que a preparação passou a ocupar praticamente todos os espaços disponíveis entre a atividade profissional e a vida doméstica.

Primeira tentativa terminou com terceiro lugar na UFPA

Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA após conciliar trabalho diário, cursinho e estudos noturnos em Belém.
Jardineiro de 61 anos conquista 3º lugar em Enfermagem na UFPA após conciliar trabalho diário, cursinho e estudos noturnos em Belém.

Nos dias de realização do Exame Nacional do Ensino Médio, Alcyr também adotou cuidados específicos para evitar contratempos, procurando chegar cedo ao local de prova, prestando atenção às orientações dos fiscais e preferindo não levar o celular, por receio de que o aparelho tocasse.

Para diminuir ainda mais o risco de algum problema durante o exame, ele levou quatro canetas, uma decisão simples que fazia parte da atenção dedicada aos detalhes depois de meses conciliando a preparação acadêmica com uma jornada diária de trabalho.

O resultado veio com a aprovação em terceiro lugar no curso de Enfermagem da UFPA, posição conquistada justamente na primeira vez em que Alcyr disputou uma vaga universitária depois de organizar a rotina para estudar de forma contínua.

No Pará, onde o tradicional listão de aprovados também costuma ser acompanhado pelo rádio, ele aguardou em casa até ouvir o próprio nome, embora inicialmente tenha acreditado que não havia conseguido porque sua aprovação não apareceu na primeira sequência anunciada.

Quando a confirmação finalmente chegou, a reação foi intensa: Alcyr contou que jogou o rádio contra a parede, saiu de bermuda pela rua gritando e procurou imediatamente a mãe, que recebeu apenas um abraço porque o filho não conseguiu falar naquele momento.

Mãe de 90 anos participou da comemoração do novo calouro

A celebração ganhou ainda uma imagem que levou a história para além de Belém, quando a mãe de Alcyr, então com 90 anos, cortou o cabelo do novo universitário seguindo uma tradição associada às comemorações de estudantes aprovados.Depois de décadas ocupando diferentes funções e sustentando a rotina principalmente com trabalho manual, a universidade passou a representar uma nova possibilidade profissional, sem apagar o percurso anterior nem as atividades que haviam garantido sua renda até aquele momento.

Formação em Enfermagem foi ligada ao desejo de atender pessoas de baixa renda

O projeto relacionado à Enfermagem, no entanto, não estava limitado à expectativa de aumentar a renda, porque Alcyr afirmou que pretendia exercer a profissão com competência e dignidade, ao mesmo tempo em que buscava uma vida melhor para si e para sua família.

Ao falar sobre quem pretendia atender, ele mencionou expressamente a população de baixa renda e afirmou que desejava ajudar sem discriminação, associando a futura atuação profissional à contribuição social que esperava oferecer depois da formação universitária.

Entre manhãs dedicadas ao corte de grama, tardes ocupadas pelo cursinho e noites de revisão em um quarto repleto de livros doados e exercícios, Alcyr construiu uma rotina que transformou a primeira tentativa de ingresso no ensino superior em terceiro lugar numa universidade federal.

A aprovação abriu a possibilidade de trocar profissionalmente o equipamento de jardinagem pelo jaleco que já permanecia pendurado no quarto durante os estudos, peça que acompanhou a preparação antes mesmo de o objetivo de cursar Enfermagem se transformar em uma vaga concreta.

Se você tivesse 61 anos, uma rotina de trabalho de domingo a domingo e um antigo objetivo ainda não realizado, começaria novamente a estudar para tentar alcançá-lo?

Aos 61 anos e trabalhando há pelo menos 23 cortando grama em quintais, morador de Belém faz cursinho à tarde após trabalhar de domingo a domingo, passa em 3º lugar para Enfermagem na UFPA na primeira tentativa e planeja usar a formação para cuidar de pessoas de baixa renda.

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