
Eu tinha uns sete anos, morava no Beco do Macedo, bairro sem água encanada, sem escola pública nem luz elétrica, e distante de tudo, àquela altura aí por volta de 1954 em Manaus, mas tive em plena sexta-feira santa uma excelente lição de português, aprendida em meio a uma desavença entre meus pais. Resolvi interromper e escrevi um bilhete entregue ao pai: Oje não se briga.
Serviu para acabar a desavença, dessas comuns, infelizmente, a casais. Mas não serviu só para isso, porque naquela manhã de uma data em que lembramos o momento singular e sem dúvida um importante base do cristianismo, a crucificação de Cristo, também serviu para eu tomar o que considero como a melhor lição de português (*) em minha vida, porque meu pai fez um bilhete de resposta, no mesmo pedaço de papel:
Oje é com H.
Há muitas lembranças de outras semanas santas na minha vida: boas, porque foi numa segunda-feira da semana Santa quando casei mas, três anos depois, uma péssima, justo na sexta-feira da paixão minha mãe morreu.
Naqueles idos, nem faz tantos anos, mas as mudanças comportamentais e valorais foram tantas que parecem fazer milhares de séculos. Havia N coisas que fazíamos na Semana Santa, como as aprontações durante o período, pois pela tradição não levaríamos nenhuma surra – mas aprendíamos rápido a dura lição: no sábado de aleluia a caderneta seria aberta e aí seria a hora do acerto de contas.
Durante a semana inteira, até domingo, não comíamos carne – em Manaus, não sei por qual motivo ela era chamada de carne verde. Desde criança nunca gostei de comer frango, passava bem com meu prato predileto, o peixe, e a mão santa da dona Zélia que conseguia, literalmente, tirar leite de pedra na cozinha.
Aulas só até quarta-feira. Desde o domingo as imagens de santos estavam cobertas. Na sexta-feira em casa não se varria nada, não se falava alto, e – desde quando tivemos nosso primeiro rádio, já na década de 1960 – o rádio ficava desligado.
De sexta para sábado quem criava porco, galinha, carneiro, bode, pato, se queria não ser surpreendido com o sumiço desses animais tinha de dar plantão a noite toda, para evitar a tradição de serem furtados. Algumas vezes, sábado pela manhã, até o dono era convidado pelos ladrões a participar do almoço, e não foi só uma vez nessas ocasiões ele descobria ser a lauta refeição a galinha ou o porco eram seus favoritos na criação. Mas aí o jeito era levar na esportiva e jurar, para o próximo ano, aumento da vigilância.
E a técnica de furtar era bem simples. Naquele tempo criavam-se galinhas nos quintais, com os animais dormindo empoleirados. Na madrugada do sábado era só pegar um pouco de visgo de sapoti ou de caju untar bem numa vara e aí enfiar a dita cuja no poleiro. Quando chegava onde estavam os animais dormindo, era dar uma balançada. Eles trocavam a posição dos pés, pisavam na vara e vinham, sem barulho, para a mão do ladrão cujo único trabalho era torcer o pescoço de cada uma.
Roubar porco também era fácil: o animal, dormindo, alguém chegava nele, acendia um palito de fósforo e deixava o animal aspirasse a fumaça pelas narinas. Acabava ali, mas o trabalho era carregar o bicho – normalmente o escolhido era sempre o mais bonito.
De sexta para sábado era tempo de serrar velho. Era só alguém dizer ao grupo haver um velho nas proximidades, e o “dedo duro” podia até ser parente do “doente”. Aí nos reuníamos em frente à casa do cidadão e, munidos de um serrote bem velho e um pedaço de tábua passávamos a serrar preparando o caixão. Não poucas vezes a coisa terminava em tiro de sal ou com alguém correndo arás da turma armado com um fio elétrico ou um pedaço de ripa. Aí, debandada geral e depois muitas risadas, rir até dos atingidos pelos perseguidores.
Sábado era malhar o judas, com uma competição sem julgamento sobre quem fazia o melhor e o mais bonito dos bonecos. E, como soe acontecer, também os bonecos de judas eram roubados na concorrência, franca e divertida, naquela disputa rua contra rua.
Eu já era adulto e numa cidade do interior de Sergipe paguei um mico: Com meu irmão mais velho, o Cesar, ele servindo de guia turístico, chegamos a uma pequena cidade e vi homens todos de ternos pretos e mulheres de roxo, saindo da igreja. Pensei: “Morreu algum importante daqui”. Paramos para tomar café num boteco e perguntei a um cidadão, todo em terno escuro, quem morrera. O camarada olhou-me com a cara mais de bronca possível,l e perguntou se eu não sabia da crucificação de Cristo.
Aqui em Porto Velho sei pelo menos de uma situação interessante: um grupo resolveu aliviar um porco enorme de um criador ali pelas bandas do Mocambo. Animal grande, resolveram conduzi-lo arrastado. Ao chegarem numa esquina vem descendo uma equipe de policiais, aquela patrulha feita a pé, chamada carinhosamente de bate-pau. Liderando, o subdelegado e jornalista Simeão Tavernard, tido como o melhor dos goleiros que já passou por aqui.
O Simeão mandou os outros policiais parar e foi até ao grupo. Naquele tempo não havia luz elétrica como agora. Ele chegou e dois do grupo adiantaram-se. Simeão perguntou o que estava acontecendo. Estamos levando um amigo para casa. Ele bebeu demais, responderam. Simeão foi embora e o grupo foi em frente.
No sábado bem cedo o Simeão entrou na redação do Alto Madeira, ainda na Rua Barão do Rio Branco, e perguntou a um que estava no grupo: Onde vocês vão comer aquele bêbado dessa noite?.
A coisa terminou em gargalhadas, durante o repasto na casa de um dos que estavam carregando o bêbado.
(*) Tive, não nego, excelentes professores da língua camoniana, dentre eles meus pais literalmente nos obrigando a ler e explicar a leitura, mas aquele fato sempre vem à memória quando lembro das muitas lições, as quais continuo tomando diariamente, o Oje é com H.
Lúcio Albuquerque
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FONTE:RONDONIAALEMDAHISTORIA.



