Memória Família Maranhão

A Saga
dos da Mata

Da cana-de-açúcar às memórias preservadas, a trajetória de João da Mata e seus descendentes revela a força de uma família que ajudou a escrever a história dos Morros.

Capa da reportagem - Família da Mata
Retrato de família — testemunho de uma travessia

A história da família da Mata em Tuntum começa com uma travessia marcada por coragem, trabalho e esperança. Em 1942, impulsionado pela busca por terras férteis e novas oportunidades, o clã deixou Sucupira do Riachão, então distrito de São João dos Patos, conhecida como a “Capital do Médio Sertão Maranhense” e também chamada carinhosamente de “Namorada do Sertão”, para lançar raízes em novas paragens.

Naquele período, o Médio Sertão vivia um contraste econômico. A produção de derivados da cana-de-açúcar era intensa, mas a região ainda era pouco habitada e de baixo consumo.

A oferta sufocava a procura. Foi nesse cenário que os da Mata decidiram migrar, levando consigo o conhecimento da cultura canavieira e da fabricação artesanal de cachaça, melaço e rapadura.

Lideranças e história local
Tuntum em transformação: o caminho rumo à emancipação

A chegada a Tuntum ocorreu em uma época de profundas transformações. O antigo distrito vivia um processo acelerado de urbanização e amadurecia politicamente rumo à emancipação. Lideranças como o deputado Eurico Ribeiro, então presidente da Assembleia Legislativa, Ariston Leda, prefeito de Presidente Dutra, e o vereador Luís Gonzaga da Cunha, conhecido como o grande líder das Areias, defendiam a autonomia política da localidade.

Mas a saga dos da Mata não se resume a deslocamentos geográficos ou à ocupação de terras. Ela se confunde com a formação de uma comunidade, com a abertura de caminhos e com a preservação de valores transmitidos de geração em geração.

Casa antiga da família da Mata
A antiga casa da família — onde cada detalhe guarda uma parte da história

Investigar os passos dos avós paternos é também mergulhar em uma travessia entre memórias orais, registros civis, documentos eclesiásticos e objetos que resistiram ao tempo. Na antiga casa da família, cada detalhe parece guardar uma parte dessa história. A bilheira com potes de barro, herança de Liduina e João da Mata, permanece como símbolo da vida simples e dura no campo. Já o oratório da avó conserva a dimensão da fé que sustentou a família em meio às mudanças sociais do antigo vilarejo dos Morros.

Era uma vida marcada pelo cultivo da cana, pela pecuária extensiva e pelo trabalho cotidiano. O cheiro doce do melaço, o alambique, a fabricação da cachaça artesanal e da rapadura faziam parte de uma rotina que unia esforço, tradição e subsistência.

Na década de 1950, as terras que antes pertenciam ao governo passaram gradualmente ao domínio privado. Foram demarcadas e registradas no extinto IBRA, posteriormente sucedido pelo Incra. João da Mata teve papel decisivo nesse processo ao demarcar áreas devolutas que margeavam a estrada para Barra do Corda, do Tuntum de Cima até a Lagoa dos Cavalos.

Sua presença naquele território ultrapassou a figura do produtor rural. João da Mata foi também tropeiro, desbravador e construtor de caminhos. Sua vida foi escrita entre o estalar do chicote das tropas, a poeira das estradas, o trabalho na lavoura e o aroma forte da cana transformada em melaço e cachaça de alambique.

O legado
além do tempo

Memórias preservadas
Onde a memória se torna presença

É, no entanto, no silêncio do cemitério local que a memória familiar alcança sua dimensão mais profunda. Diante do monumento histórico de Vitória Fernandes da Silva, bisavó da família, falecida em 1877, e dos túmulos de entes queridos como tia Adélia e tio Bruno, o passado deixa de ser apenas lembrança e se transforma em presença.

Imagens restauradas e nomes gravados
Imagens restauradas, nomes gravados, objetos preservados

Ali, as gerações se encontram. As imagens restauradas, os nomes gravados, os objetos preservados e as histórias contadas pelos mais velhos compõem um testemunho visual e afetivo do “carinho de avós” que moldou filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

A saga de João da Mata e de sua linhagem não foi apenas uma migração em busca de terras férteis. Foi a semente de uma história coletiva. Uma narrativa feita de fé, trabalho, pertencimento e resistência. Cada memória recuperada ajuda a manter viva a essência daqueles que primeiro desbravaram os Morros e transformaram aquele chão em lugar de família, produção e esperança.

Ao revisitar os Morros e entrar naquela antiga casa, a sensação é de reencontro. Como se as paredes ainda guardassem vozes, passos e gestos de quem passou por ali.
João da Mata - retrato
João da Mata: arquiteto de caminhos

Ao olhar para trás, torna-se evidente que João da Mata foi muito mais que um produtor ou tropeiro. Foi um arquiteto de caminhos.

Sua história segue viva no barro dos potes, no silêncio do oratório, nas marcas da terra, nos túmulos antigos, nas memórias compartilhadas e no orgulho de uma descendência que continua brotando da coragem daqueles que fizeram dos Morros não apenas um destino, mas uma herança.

Memórias em movimento

Vozes
que atravessam o tempo

Sete registros audiovisuais que preservam o som, o gesto e o silêncio de uma história contada de geração em geração.

I Capítulo I
II Capítulo II
III Capítulo III
IV Capítulo IV
V Capítulo V
VI Capítulo VI
VII Capítulo VII