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TENENTE FERNANDO (6) – As muitas versões de um caso nunca explicado

TENENTE FERNANDO (6) – As muitas versões de um caso nunca explicado

Lúcio Albuquerque – [email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da
Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Há versões para todos os gostos para explicar – ou será para confundir? – o desaparecimento do tenente Fernando Gomes de Oliveira, na tarde de domingo, 29 de julho de 1945. Apesar de todas as varreduras feitas por tropas do Exército com apoio de mateiros, de boatos de toda a ordem, só se tem certeza de duas coisas.

1 – O tenente Fernando desapareceu.

2 – Ninguém tem uma versão definitiva sobre como ele sumiu.

TENENTE FERNANDO:
CARACTERÍSTICOS DO DESAPARECIDO ALTO, FORTE, MORENO, OLHOS E CABELOS PRETOS, SO. BRANCELHAS CERRADAS, CONTANDO 23 ANOS POR OCASIÃO DE SEU DESAPARECIMENTO

Todas as versões geraram uma confusão que qualquer investigador não teria muitas linhas de trabalho para definir como a coisa aconteceu. O jornalista Euro Tourinho, do jornal Alto Madeira, descartava uma delas, a de que o oficial sumiu para que se concretizasse a ameaça que teria sido feita pela Mãe de Santo Esperança Rita que, ao ter seu terreiro praticamente destruído pela patrulha comandada pelo tenente Fernando, teria dito que ele iria pagar.

“Essa versão de que tudo foi um castigo dos orixás não tem fundamento”, disse Euro ao falar do assunto, mas uma importante figura religiosa ligada ao terreiro de Mãe Esperança (**) garantia que “os encantados da floresta podem ter cumprido a ameaça de Mãe Esperança”.

A entrevistada contou que seu pai era membro da Guarda Territorial e estava na patrulha comandada pelo oficial – o contingente era misto, mas que seu pai contara a ela que se negara em entrar no terreiro.

O GENERAL ÊNIO PINHEIRO
Fazia 52 anos que o tenente-engenheiro do Exército Fernando Gomes de Oliveira, sumira nas selvas na região de São Pedro. Seu desaparecimento sustentou durante muitos anos discursos políticos de adversários de Aluízio Ferreira – O jornalista Esron Menezes falou várias vezes que a inclusão do “coronel Aluízio no desaparecimento do tenente Fernando foi invenção dos inimigos dele, a partir da disputa eleitoral e de 1954”, nove anos após o desaparecimento.

Em 1997, por ocasião do centenário do nascimento do coronel Aluízio Pinheiro Ferreira, a ACLER – Academia de Letras de Rondônia e o IHGA – Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia promoveram um evento – em reunião no gabinete do vice-governador Aparício Carvalho e na presença do governador Valdir Raupp – para marcar o centenário.

O principal orador era o ex-governador e general da reserva do Exército Ênio Pinheiro que, durante sua exposição surpreendeu os presentes ao falar do “envolvimento” de Aluízio, primo de Ênio, no sumiço do tenente Fernando.

Dois intelectuais, ambos membros das duas entidades, que participavam do evento contariam, anos mais tarde, que causou estranheza a fala de Ênio Pinheiro. “Ninguém falara do assunto, não se fizera qualquer pergunta”, lembrava o historiador Francisco Matias. “A citação pegou de surpresa os participantes e causou mal-estar, porque muitos dos presentes eram do grupo adversário do coronel Aluízio; felizmente apesar de se entender como provocação, preferimos ouvir e nada falar”, disse o professor Abnael Machado de Lima.

Da mesma forma o jornalista Euro Tourinho se expressou, participando como convidado daquele evento: “As explicações do general Ênio Pinheiro pareceram mais uma justificativa, do que se falava abertamente, e pareceu a confirmação ”.

Mas, para entender o que aconteceu, é preciso voltar no tempo e se situar numa época já distante, quando Porto Velho tinha menos de 6 mil habitantes e quem mandava e desmandava, sem contestação, era o governador Aluízio Pinheiro Ferreira.

Naquela época, de comunicação rápida só havia o telégrafo cujas cópias, dizem os mais antigos, se tratasse de assunto de interesse do governador de plantão ia primeiro para ele ler. A Justiça era representada por um juiz, quando havia, e se vivia num período de exceção sob a ditadura de Vargas, amigo de Aluízio Ferreira.

Poucos historiadores locais – afora a professora e historiadora Yêda Borzacov, parente de Aluízio – se aprofundam no caso do tenente Fernando, apesar da repercussão na Imprensa nacional que chegou a mandar a Porto Velho repórteres de primeira linha, dando ao fato uma cobertura enorme, como fez a revista O Cruzeiro. Além disso, o Exército fez diversas varreduras na região onde o oficial desapareceu, inclusive utilizando aviões militares e comerciais, tentando sua localização, sem nenhum resultado.

Quem mais se estende sobre o assunto é o (então) capitão Ênio Pinheiro, primo de Aluízio, àquela altura, comandante da 2a. Companhia Rodoviária Independente e chefe imediato do tenente Fernando, no livro “À sombra de Rondon e Juarez”, em que Ênio narra sua trajetória como oficial da arma de Engenharia do Exército.

Mas também não oferece qualquer linha positiva para uma investigação 70 anos depois.

VERSÕES
Tanto do lado dos seus amigos, os do grupo político “cutuba”, quanto dos adversários, o grupo político pele-curta, foram montadas “n” versões, as mais recorrentes foram:
O oficial teria sido sequestrado pelos índios Boca-Negra para servir de reprodutor e apurar a raça da tribo.
O oficial teria sido vítima de um atentado por pessoas ligadas ao governador.
O oficial teria se perdido na mata.
O oficial teria sumido num buraco da selva.
O oficial teria sido vítima do ataque de algum animal.
O oficial teria sido jogado num rio, amarrado a uma pedra.

Há alguns anos uma mulher teria se apresentado ao historiador Francisco Matias, dizendo ser neta do tenente Fernando e contando que, depois de se perder na selva ele teria seguido em frente até chegar à cidade de Xapuri (AC), onde constituíra família, mas não se pode confirmar a estória ouvida por Matias.

Segundo uma fonte ouvida pelo autor, o espírito do tenente Fernando teria se apresentado durante uma sessão num terreiro e pedido desculpas, mas uma importante autoridade dessa religião disse desconhecer o fato.

(**) Da entrevista participou também o professor e historiador Francisco Silva, o “Chiquinho”

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